I Artigo: Criador do Céu e da Terra (Parte II de III)

A Criação de Adão de Michelangelo | Tela para Quadro na Santhatela

Se alguém negar que há um só Deus verdadeiro, criador e Senhor das coisas visíveis e invisíveis: seja anátema” (Concílio Vaticano I, 1870, Constituição dogmática Dei Filius, D. 3021).

Na primeira parte deste I Artigo abordamos as ações internas de Deus e a operação das Pessoas divinas. Nesta segunda parte veremos as ações externas (ad extra), isto é, de Si para outro. O universo e tudo que nele existe não tem em si mesmo uma razão suficiente para existir, portanto, Deus deve ser o Criador deste universo. Qual é então a história da Criação e como ela acontece?

23. Que é criar?

Criar é fazer alguma coisa do nada. Este é o sentido próprio da palavra. Quando falamos que criamos tal ou qual coisa, falamos impropriamente, pois utilizamos uma matéria preexistente. O ato da criação é virtude da onipotência que somente Deus a possui. É privilégio de Deus criar, isto é, fazer alguma coisa do nada, pois isso exige uma potência infinita.

É por demais absurdo e contrário a doutrina Católica afirmar que Deus criou o mundo de uma parte de sua substância. Ora, como já vimos, Deus é um ser espiritual e perfeitamente simples [cf nº 17]. Não pode então ter formado de sua substância um mundo material, composto e perecível. Portanto, é necessário admitir que Deus criou o mundo do nada. É o que chamamos de criação ex nihilo.

Por amor espontâneo Deus criou o mundo. Por conseguinte, o ato criador é livre. É uma consequência necessária da natureza de Deus. Se Deus é o Ser perfeito e infinito, como vimos na parte em que falamos sobre seus atributos, não pode submeter-se a uma necessidade de produzir o ser. Com efeito, Deus criou o mundo por Sua livre e espontânea vontade. Nenhum outro motivo O impeliu a criar o mundo, senão a Sua própria bondade. Possuindo em Si todos os bens, quis comunicá-los as coisas que criasse, como exprime Davi: “Disse eu ao Senhor: Vós sois o meu Deus, e não tendes precisão dos meus bens“.

Criação de infinita sabedoria. Além disso, devido a Sua sabedoria infinita, Deus possui a idéia exemplar de todas as coisas. Sobre isso nos diz o Catecismo Romano: “Contemplando, pois, em Si mesmo essa idéia exemplar; e reproduzindo-a, por assim dizer, com a suma sabedoria e o infinito poder, que Lhe são próprios, Supremo Artífice criou no princípio todas as coisas do Universo. “Louvem o nome do Senhor, porque Ele mandou e tudo foi criado” (Sl 148, 5).

Sobre esses dois pontos, diz a Santa Igreja:

Este único e verdadeiro Deus, por Sua bondade e por Sua virtude onipotente, não para adquirir nova felicidade ou para aumentá-la, mas a fim de manifestar a Sua perfeição pelos bens que prodigaliza às criaturas, com vontade plenamente livre, criou simultaneamente no início do tempo ambas as criaturas do nada: a espiritual e a corporal, ou seja, os anjos e o mundo; e em seguida a humana, constituída de espírito e corpo” (Concílio Vaticano I, 1870, Constituição dogmática Dei Filius, D. 3002, destaques nossos).

24. A finalidade da criação

Deus tendo criado tudo do nada determinou dois propósitos para a criação: a glória Dele próprio e a felicidade das criaturas.

O fim primário da criação é a glória de Deus. Isso acontece de duas formas:

  1. As racionais dão glória a Deus de maneira direta e consciente, mediante o conhecimento, amor e serviço ao Criador;
  2. As irracionais de maneira indireta na medida em que fazem o que lhe é próprio e também em que dão a conhecer as perfeições divinas, em especial: a onipotência, que tirou seus seres do nada; a sabedoria, que dispôs com tanta ordem e beleza; e a bondade, que propôs para o bem.

Sobre as criaturas irracionais é dito:

Deus disse: Eis que Eu vos dou toda a erva que dá semente sobre a terra, e todas as árvores frutíferas que contêm em si mesmas a sua semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos os animais da terra, a todas as aves dos céus, a tudo o que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, Eu dou toda erva verde por alimento” (Gn 1,29s).

O fim secundário da criação é a felicidade das criaturas. Cada ser é feliz realizando aquilo para o qual ele foi constituído.

25. A gradação dos seres

Os seres criados por Deus são classificados do seguinte modo [2]:

MineralVegetalAnimalHomemAnjo
Apenas existência real: pedra de safiraExistência e vida: pau-brasilExistência, vida e sensibilidade: leãoExistência, vida, sensibilidade e espiritualidade: Tomás de AquinoPura espiritualidade: São Miguel

Os minerais não possuem nada além do próprio ser, isto é a existência. Quanto aos seres que possuem a vida, dizemos que vida é a capacidade imanente da matéria de automover-se. Essa capacidade é dada pela alma, anima. Aquilo que todo ser vivente possui e que difere entre os seres racionais e irracionais. Razão pela qual os chamamos de seres animados. Assim, a alma é o princípio da vida. No entanto, há uma classificação: uma é a alma vegetativa, uma a alma sensitiva e outra é a alma espiritual. Contudo, cada ser animado possui uma única alma que cumpre todas as funções da sua natureza.

Além disso, a algumas criaturas foi reservado o privilégio de ser como a imagem de Deus. Isso faz como que elas sejam mais dignas que outras. Essas criaturas são as espirituais, isto é, os anjos e os homens.

26. Os anjos

A existência dos anjos foi definida solenemente pelo IV Concílio de Latrão, em 1215, D 800:

Deus… criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, espirituais e materiais, que com sua força onipotente desde o princípio do tempo criou do nada uma e outra criação: a espiritual e a material, isto é, a angelical e a mundana; e, depois, a humana, de algum modo comum [a ambas], composta de alma e corpo“.

Na primeira parte deste I Artigo falamos sobre os seres espirituais e o seu significado. Contudo, para melhor fixarmos relembremos. A doutrina católica ensina que os anjos são seres de puro espírito. Quer dizer, seres que não necessitam da matéria para existirem nem realizar suas operações. Todo ser espiritual é capaz de agir de modo diverso dos seres puramente materiais; em outras palavras, agem pelas faculdades da inteligência e da vontade.

Pela razão deduzimos que há seres de puro espírito, pois do contrário haveria um abismo na gradação dos seres até chegar a Deus. Sendo o homem composto de alma espiritual e corpo, se deduz que a providência por Sua sabedoria infinita, não deixaria esse abismo. Concorre então que exista algum ser mais próximo a Deus, a saber os de puro espírito. Contudo, isso é um artificio que utilizamos para deduzir.

a) A existência dos anjos por testemunho bíblico

É a própria Revelação que nos confirma a certeza da existência dos anjos: “Entretanto, Vós fizestes o homem quase igual aos Anjos, de glória e honra o coroastes” (Sl 8, 6). Além disso, há um belíssimo relado no livro de Tobias sobre o anjo São Rafael (Tb 12, 12-22).

  1. Antigo Testamento:
  • Um anjo, armado de espada flamejante, guarda a entrada do Paraíso terrestre depois da expulsão de Adão e Eva (Gênesis 3, 24);
  • Um anjo aparece a Agar, consolando-a no deserto (Gênesis 16, 9; 21, 17);
  • Um anjo detém o braço de Abraão que está para sacrificar Isaque (Gênesis 22, 11);
  • Um anjo faz sair Lot com a família da cidade de Sodoma, que está para ser abrasada pelo fogo do Céu (Gênesis 19);
  • Jacó vêm em sonho uma multidão de anjos, que sobem e descem por uma escada unindo o Céu à Terra (Gênesis 28, 12);
  • Um anjo reconforta Elias no deserto (1Reis 19, 5).

2. Novo Testamento:

  • O arcanjo Gabriel é o mensageiro da Encarnação. Anuncia a Zacarias o nascimento de São João Batista, e a Nossa Senhora o do Messias (Lucas 1, 11, 26);
  • Aos pastores, anjos comunicam o nascimento do Salvador (Lucas 2, 13);
  • É um anjo que faz São José seguir para o Egito, e o faz voltar dali (Mateus 2, 13, 19);
  • No deserto, servem os anjos a Jesus (Mateus 4, 11);
  • Um anjo o assiste na agonia (Lucas 22, 43);
  • Anjos revelam às santas mulheres a Ressurreição (Mateus 28, 5-6);
  • Um anjo liberta da prisão São Pedro (Atos, 12, 5-17).

Eis o motivo pelo qual Deus criou os anjos:

Bendizei ao Senhor todos os Seus Anjos, valentes heróis que cumpris Suas ordens, sempre dóceis à Sua palavra. Bendizei ao Senhor todos os Seus Exércitos [celestes], ministros que executais Sua vontade” (Sl 102, 20s).

Embora o livro de Gênesis fale explicitamente do homem, ao dizer: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança“. (Gn 1, 26), fazendo uma relação com a passagem do (Sl 8, 5-6), onde é dito: “Que é o homem – digo-me então -, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes“. Por analogia ao que está dito da Revelação acerca do homem, é possível afirmar que os anjos foram criados à imagem e segundo a semelhança de Deus. Ora, se o homem que é inferior aos anjos, foi feito à imagem e segundo a semelhança de Deus, pode-se concluir, com maior razão, o mesmo dos anjos uma vez que são seres superiores.

Ser criado à imagem de Deus significa que são seres espirituais, ou seja, são imortais e dotados de inteligência e vontade livre:

  • São imortais: porque estão totalmente livres da matéria, são de realidade espiritual e não composto de partes, não sofrem nem possuem necessidades. Em linguagem filosófica dizemos que são formas puras.
  • A inteligência angelical é mais perfeita que a do homem. Seu conhecimento não se dá através do raciocínio que encadeia uma série de fatores e chega a uma conclusão num determinado tempo, mas de modo imediato: assim que contemplam algo, compreendem a essência da coisa, sem apego às aparências, como afirma a Escritura: “Porém tu, ó rei, meu senhor, és tão sábio como um Anjo de Deus, para saber tudo o que se passa na terra!” (2Sm 14, 20).
  • Sua vontade não está sujeita a mudanças como a do homem, pois não possuem sensibilidade e sempre conhecem completamente o que contemplam [3].

b) A existência dos anjos segundo os Padres da Igreja [4]

Diz Santo Inácio de Antioquia:

Poderia eu vos escrever sobre as coisas celestes? Temo, porém, fazer-vos mal, pois ainda sois crianças. Perdoai-me. Não podendo assimilar, poderíeis sofrer indigestão. Quanto a mim, embora esteja acorrentado e me seja possível conceber as coisas celestes, as hierarquias dos anjos, os exércitos dos principados, as coisas visíveis e invisíveis, não sou ainda discípulo. Falta-nos muitas coisas para que Deus não nos falte” (Carta Aos Tralianos V).

Diz São Clemente Romano:

Seja ele o nosso orgulho e franqueza. Submetamo-nos à sua vontade. Consideremos como toda a multidão de seus anjos, estando junto d’Ele, estão a serviço de sua vontade. De fato, a Escritura diz: “Miríades e miríades estão junto d’Ele; milhares e milhares estão a seu serviço. E eles gritam: Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos! Toda a criação está cheia de sua glória.” Também nós, na concórdia, unidos na mesma consciência, como uma só boca, chamemos a ele com insistência, a fim de que tenhamos parte nas suas grandes e magníficas promessas. Ele, de fato, diz: “Nenhum olho viu, nenhum ouvido ouviu, e não entrou no coração do homem aquilo que Deus preparou para aqueles que o esperam” (Epístola Aos Coríntios Capítulo XXXIV 5-8).

c) O número deles

Ouvi também, ao redor do trono, a voz de muitos anjos, em número de miríades de miríades e de milhares de milhares” (Ap 5, 11).

Pelos textos da Sagrada Escritura deduzimos que são muitos os anjos. Muitos teólogos dizem que o número deles é superior ao dos homens que existiram desde o princípio do mundo e existirão até o fim dos tempos. A razão disso é dada por Santo Tomás ao dizer que Deus ao criar os seres visando a perfeição do universo, quanto mais estes forem perfeitos, o Senhor os terá criado em abundância. Sendo os anjos mais perfeitos que os seres corpóreos, teriam sido criados em maior número.

d) A hierarquia angélica e suas ordens

Milhares e milhares o serviam, dezenas de milhares o assistiam” (Dn 7, 10).

A primeira hierarquia, é mais próxima a Deus e relativa aos Seus segredos e por isso é a hierarquia superior que recebe a iluminação divina, conhecendo-a no próprio Deus e na caridade, elas consideram o fim das coisas; a segunda hierarquia, relativa ao governo e direção do universo, denominada hierarquia média, recebe a iluminação divina relativa às coisas mais universais, ordenando-as na esperança; e a terceira hierarquia, relativa à execução dos ofícios e atividades divinas, conhecida como hierarquia inferior, e que recebe a iluminação divina em sua determinação e efeitos particulares, executando-a na fé.

Em cada ordem, há uma diversidade de anjos, e todos têm em comum algo que os une à mesma ordem, mas têm de distinto, além de suas individualidades específicas, as verdades iluminadas que possuem e que os distinguem no interior da ordem em três categorias de anjos: os primeiros, os intermediários e os últimos.

A hierarquia celeste assim se estabelece: o Coro Angélico se divide em três hierarquias [5].

  1. A Primeira Hierarquia se divide em três ordens: 1ª Ordem, a dos Serafins (ardor caritativo: imagem do amor divino); 2ª Ordem, a dos Querubins (plenitude de ciência: imagem da sabedoria divina) e a 3ª Ordem, a dos Tronos (assento de Deus: compreendem o juízo divino).
  2. A Segunda Hierarquia se divide em três ordens: 1ª Ordem, Dominação (governo dos próprios anjos: domina e distingue o que fazer); 2ª Ordem, Virtude (executa a ordem da dominação com relação à natureza física) e a 3ª Ordem, Potestade (ocupa-se do combate aos anjos caídos).
  3. A Terceira Hierarquia também se divide em três ordens: 1ª Ordem, Principado (guia na execução dos atos e dirigem os destinos das nações); 2ª Ordem, Arcanjo (anuncia importantes missões aos homens e guarda as pessoas que desempenham importantes funções para a glória de Deus, como o Papa, bispos e sacerdotes) e a 3ª Ordem, Anjo (anuncia, comunica e protege individualmente cada homem). Esta é a ordem hierárquica dos anjos estabelecida em relação à perfeição da glória e ao que a natureza tem e recebeu na origem de sua criação

e) A ação dos anjos

Quanto ao poder dos anjos sobre a matéria, cabe uma explicação mais detalhada [6].

Enquanto os seres corpóreos manifestam sua presença num lugar circunscrevendo-o pelo contato físico, por exemplo, quando escrevemos uma carta e utilizamos uma caneta a presença da caneta é marcada por seu contato com o papel, as criaturas incorpóreas delimitam o lugar por meio de um contato operativo, quer dizer, elas estão no lugar onde agem.

Vale destacar ainda que um ser superior pode mover os inferiores porque tem em si, de um modo mais eminente, as virtualidades desses seres inferiores. Assim, o corpo humano é movido por algo superior a ele, a alma, que é espiritual, a qual, através da vontade, que também é imaterial, move os membros corpóreos. Logo, não repugna à razão que uma substância espiritual possa mover a matéria.

Entretanto, no caso da alma humana, ela só pode mover diretamente aquele corpo com o qual está substancialmente unida; as demais coisas, ela só pode mover por meio desse corpo. Ora, como os anjos são seres espirituais, não estando substancialmente unidos a nenhum corpo material, sua força de ação sobre a matéria não está delimitada por nenhum corpo específico; daí se segue que eles podem mover livremente qualquer matéria e que seu poder de fazer prodígios no nosso mundo é imenso.

27. O estado original dos anjos e a prova

Seremos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como Ele é” (1Jo 3, 2). A isso são chamadas as criaturas espirituais: ver Deus como ele é. Este dom sobrenatural, Deus concedeu somente as criaturas mais perfeitas. Deus os chamou, os anjos e os homens, à vida divina, elevou-os à graça sobrenatural, adotou-os como Seus filhos, para viver junto d’Ele no Paraíso Celeste. No entanto, não os destinou impreterivelmente para o céu, mas por se tratarem de criaturas espirituais, livres que eram, chamou-as a participar de sua vida divina. Contudo, elas necessitavam de mérito [7], precisavam merecer a beatitude.

Criando Deus os anjos racionais e livres, quis que eles com o auxílio da graça, fossem agentes de sua própria felicidade caso cooperassem, ou perdição eterna caso resistissem à graça, submetendo-os a uma prova (prova esta que não se sabe qual foi). Disso decorre que, na hora da prova eles possuíam a graça santificante, e isso sabemo-lo pelas expressões das Sagradas Escrituras que os designam por “filhos de Deus” (Jó 38, 7), “santos” (Daniel 8, 13) e “anjos de luz” (2Coríntios 11, 14).

A opinião comum é de que a queda dos anjos resulta do pecado de orgulho. Ademais, lemos na Sagrada Escritura que “o orgulho é a origem de todo mal” (Tobias 4, 14). Mas como se haveria manifestado este orgulho? Segundo pensa Santo Tomás, eles quiseram igualar-se a Deus, negando-lhe as homenagens e a veneração devidas ao Criador, isto é, desejaram diretamente a bem-aventurança final, não por uma concessão de Deus, por obra da graça, e sim por sua virtude própria, como decorrência de sua natureza.

28. A queda dos anjos

Então uns perseveraram, a esses chamamos de anjos, e outros não, esses são os demônios.

Jesus disse-lhes: Vi Satanás cair do céu como um raio” (Lc 10, 18).

Os Anjos são realmente Santos e confirmados em graça; portanto, não podem mais pecar e gozam da bem-aventurança eterna. Os demônios, entretanto, estão na danação e desgraçados, condenados ao inferno, odeiam a Deus eternamente sem qualquer possibilidade de arrependimento devido a capacidade intelectiva que possuem.

Lúcifer (portador da luz), o primeiro anjo que se rebelou era a criatura mais nobre e mais excelente que Deus criou. Em sua natureza ele refletia a essência divina. Mesmo assim, isso não impediu sua queda:

Tua majestade desceu à morada dos mortos, acompanhada do som de tuas harpas. Jazes sobre um leito de vermes e os vermes são a tua coberta. Então! Caíste dos céus, astro brilhante, filho da aurora! (Is 14, 11s).

És um selo de perfeição, cheio de sabedoria, de uma beleza acabada. Estavas no Éden, jardim de Deus, estavas coberto de gemas diversas: sardônica, topázio e diamante, crisólito, ônix e jaspe, safira, carbúnculo e esmeralda; trabalhados em ouro. Tamborins e flautas, estavam a teu serviço, prontos desde o dia em que foste criado. Eras um querubim protetor colocado sobre a montanha santa de Deus; passeavas entre as pedras de fogo. Foste irrepreensível em teu proceder desde o dia em que foste criado, até que a iniquidade apareceu em ti. No desenvolvimento do teu comércio, encheram-se as tuas entranhas de violência e pecado; por isso eu te bani da montanha de Deus, e te fiz perecer, ó querubim protetor, em meio às pedras de fogo. Teu coração se inflou de orgulho devido à tua beleza, arruinaste a tua sabedoria, por causa do teu esplendor; precipitei-te em terra, e dei com isso um espetáculo aos reis. À força de iniquidade e de desonestidade no teu comércio, profanaste os teus santuários; assim, de ti fiz jorrar o fogo que te devorou e te reduzi a cinza sobre a terra aos olhos dos espectadores. Todos aqueles que te conheciam entre os povos ficaram estupefatos com o teu destino; acabaste sendo um objeto de espanto; foste banido para sempre!  (Ez 28, 12-19).

Por sua inspiração, os outros demônios pecaram:

Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Houve uma batalha no céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar no céu para eles. Foi então precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele os seus anjos (Ap 12, 3.7ss).

Então! Foste abatido por terra, tu que prostravas as nações! Tu dizias: ‘Escalarei os céus e erigirei meu trono acima das estrelas. Assentar-me-ei no monte da assembleia, no extremo norte. Subirei sobre as nuvens mais altas e me tornarei igual ao Altíssimo’. E, entretanto, eis que foste precipitado à morada dos mortos, ao mais profundo abismo. Detêm-se para ver-te melhor, e procuram reconhecer-te: Porventura é aquele que fazia tremer a terra, e abalava os impérios, que fazia do mundo um deserto, e destruía as cidades, e impedia os prisioneiros de voltarem para suas casas? (Is 14, 12-17).

Diz Santo Tomás [8]: Desejou indevidamente ser semelhante a Deus, porque desejou como fim último da felicidade aquilo ao que podia chegar pela virtude da sua natureza, desviando o seu desejo da beatitude sobrenatural, que é graça de Deus. Ou, se desejou como fim último a semelhança com Deus, que é dom da graça, quis tê-la pela virtude da sua natureza, e não pelo auxílio divino, segundo a disposição de Deus. E isto é consoante às palavras de Anselmo, dizendo ter o demônio desejado aquilo que obteria se perseverasse. E estas duas explicações se reduzem a uma sóde uma e outra maneira o diabo desejou ter a beatitude final, pela sua virtude, o que é próprio de Deus (destaques nossos)

Em razão da superioridade natural de Lúcifer, exercendo influência sobre o pecado dos outros anjos, como castigo, esses ficaram sobre seu domínio, porque todo aquele que é vencido, é escravo daquele que o venceu (2Pd 2, 19). Os anjos maus aceitaram essa subordinação a Satanás, porque com ela almejavam conseguir a bem-aventurança com suas próprias forças, e, sobretudo, porque na ordem natural, que foi a razão do seu pecado, estavam já submetidos ao Anjo Supremo.

Hoje, os demônios vagueiam o mundo para perder as almas, hasteando bandeiras de alistamento para inferno, procurando a quem devorar (1Pd 5, 8); são os inimigos invisíveis da Igreja:

O Dragão, então, se irritou contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” (Ap 12, 16s).

Notas

[1] Salmo 15, Vulgata latina.

[2] Há também os seres chamados ente de razão que apenas existem virtualmente.

[3] Para entender mais sobre a inteligência a a vontade dos anjos, basta conferir (ST. I, q. 58 e 59).

[4] Para mais testemunhos dos Padres da Igreja [clique aqui].

[5] ST.I, q.108, a.7, 3. A ordem em que cada anjo se encontra permanece. Então um anjo não poder mudar de uma ordem para outra, não impedindo, porém, que um anjo inferior seja servido por um superior em razão da dignidade do ofício que lhe designa Deus por iluminação, como no caso do Arcanjo São Gabriel, que anuncia tão sublime acontecimento da Encarnação. Para entender mais sobre a ordenação dos anjos por hierarquia e ordens confira a ST. I, q 108.

[6] Para a elaboração deste tópico utilizamos a ST. I, qq. 52, 107, 110-112; confira também.

[7] Mérito é o direito ao recebimento do prêmio devido a um ato consumado (o contrário é demérito) e apenas pode ser adquirido no estado de vida, no caso do homem.

[8] ST. I, q. 63, a. 3.

4 comentários sobre “I Artigo: Criador do Céu e da Terra (Parte II de III)

  1. Luiz Fernando

    Pode ser que o Universo seja Eterno, com infinitas manifestações eternas de formação, permanência e dissolução e assim vai eternamente.

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    1. Matheus Y. Assunção

      Esse argumento panteísta Santo Tomás já refutou nas “Cinco vias que conduzem a Deus”. Basicamente ele diz que o mundo não tem em si mesmo a razão de sua existência, pelo fato de ser ele mesmo contingente. Isso é demonstrado: um ser que tivesse em si mesmo, isto é, na sua própria natureza, a razão de sua existência, existiria sempre e necessariamente. Por conta desse ser necessário é que tudo o mais existiria. Ora, o mundo não é esse ser único e infinito. Dizer isso é ir contra a razão. O todo (o mundo), que é a soma das partes, não pode ser de uma natureza diferente das partes (as coisas do mundo). O mundo é composto de seres contingentes, logo, ele também é contingente. E assim como cada uma das suas partes, ele não existe por si mesmo. Portanto, a própria existência do mundo postula a existência de um ser que exista por si mesmo que é Deus.

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  2. Luiz Fernando

    Desculpa esqueci de escrever uma palavra aqui está o texto correto sendo assim pode desconsiderar o anterior.
    A vida é eterna logo sempre se manifesta então o Universo sempre deve existir eternamente por toda a eternidade. Não entendi porque São Tomas cre que o Universo é contingente pois não é questão do Universo poder se manifestar ou não pois ele sempre existe , e veja se Deus é Criador logo Ele obrigatoriamente tem que criar. Se o mundo é a soma das partes então como definir o mundo de maneira direta e objetiva ?Onde está a essência deste mundo nele mesmo? Se Deus é Espirito o que seria esse Espírito? Uma soma de infinitos eventos transcedentais(partes) ou infinitos pontos luminosos(partes)? Deus se conhece Si para isso ele racíocina logo tem pensamentos i.e soma de pensamentos transcedentais.

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    1. Matheus Y. Assunção

      1 – “A vida é eterna logo sempre se manifesta então o Universo sempre deve existir eternamente por toda a eternidade.” Essa sua afirmação não tem embasamento.

      2 – Você diz que o Universo sempre existiu, mas para isso argumenta que Deus obrigatoriamente tem que criar? Mas porquê Deus obrigatoriamente tem que criar? O que obriga ele a criar? Logo no início do texto, quando falamos do ato criador, explicamos que por amor espontâneo Deus criou o mundo. Ou seja, o ato criador é livre. É uma consequência necessária da natureza de Deus. Deus é perfeito e nada lhe falta. Dizer que Ele necessita criar não faz sentido 1) porque possui em si todos os bens; 2) porque não há nada que lhe obrigasse a criar, pois nada está acima Dele.

      3 – Sobre a definição do mundo
      Onde está a subjetividade em dizer que o mundo é a soma de todas as suas partes?

      4 – A respeito das outras questões não comentarei, pois suas perguntas são de cunho catequético e algumas delas já respondemos na primeira parte deste Artigo do Credo confira aqui: [https://gaudeteindominosemper.wordpress.com/2020/10/29/i-artigo-creio-em-deus-pai-todo-poderoso-parte-i-de-iii/], ou responderemos a medida que os textos sobre o Catecismo forem publicados. Caso tentemos responder em poucas palavra poderemos ser mal compreendidos ou daremos respostas rasas. Sugiro que continue lendo o blog e reze para que Deus sempre lhe mostre a verdade.

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