A espiritualidade do Concílio Vaticano II – Apostasia dos princípios

Concílio Vaticano II
Imagem do Concílio Vaticano II

Ao invés de elevar o homem caído, mostrar-lhes suas chagas mortais a fim de curá-lo com um remédio eficaz e conduzi-lo ao interior da Igreja, e assim submetê-lo  a Deus. Quiseram fazer um Concílio pacifista, inventar novos meios de apostolado fazendo abstração da Revelação e doutrina ensinada pelos Santos Papas em vista do mundo atual para assim tornar a Verdade acessível aos espíritos treinados para negar o sobrenatural, deixando de lado o espírito missionário, assinando a paz com os inimigos da Igreja, dessa forma, realizando aquilo que Mons. Lefebvre chamou de “apostasia dos princípios”.

Lembremos do que disse João XXIII, em sua elocução de abertura do Concílio, sobre a nova atitude que a Igreja deveria tomar diante dos erros que ameaçavam a doutrina Católica: recordando que a Igreja nunca se tinha furtado a fazer oposição aos erros, que muitas vezes os tinha condenado com a passada severidade, declarou que ela agora preferia, diz Ralph Wiltgen [1], utilizar o remédio da misericórdia em vez das armas do rigor, e, nas presentes circunstâncias, julgava mais oportuno expor mais largamente a força de sua doutrina que recorre a condenações”. No entanto, o mesmo João XXIII havia dito pouco antes que o principal cuidado do Concílio “é que o sagrado depósito da doutrina cristã seja conservado e exposto de maneira eficaz, e continua dizendo, a Igreja nunca deveria “perder de vista o sagrado patrimônio de verdade que recebeu dos antepassados, mas devemos considerar o nosso tempo”. Que maneira eficaz é essa que a a Igreja nunca descobriu em quase dois mil anos de sua história? A maneira de considerar as “necessidades de nosso tempo”? Quais necessidades? As de liberdade civil de todos os cultos baseada na dignidade da pessoa humana que propaga a peste do indiferentismo? Dignidade essa que consiste em dizer que o homem, dotado de inteligência e de livre arbítrio, está por sua própria natureza preparado para conhecer a Deus, o que não poderá conseguir se não for deixado livre [2]. Lembremos também o que disse Paulo VI no seu discurso de encerramento durante a última sessão pública do Vaticano II:

“(…) a Igreja, reunida em Concílio, entendeu sobretudo fazer a consideração sobre si mesma e sobre a relação que a une a Deus; e também sobre o homem, o homem tal qual ele se mostra realmente no nosso tempo: o homem que vive; o homem que se esforça por cuidar só de si; o homem que não só se julga digno de ser como que o centro dos outros, mas também não se envergonha de afirmar que é o princípio e a razão de ser de tudo”.

Em seguida ele fala das misérias do homem sem Deus :

“(…) o homem sagrado pela inocência da sua infância, pelo mistério da sua pobreza, pela piedade da sua dor; o homem individualista, dum lado, e o homem social, do outro; o homem « laudator temporis acti», e o homem que sonha com o futuro (…)”.

E logo diz:

“o homem por um lado sujeito a faltas, e por outro adornado de santos costumes” [destaques nossos].

Faço a mesma pergunta que Mons. Lefebvre: o que tem haver o homem santo com essa coleção de imundices? Em seguida ele relembra o que disse e aprofunda:

“O humanismo laico e profano apareceu, finalmente, em toda a sua terrível estatura, e por assim dizer desafiou o Concílio para a luta. A religião, que é o culto de Deus que quis ser homem, e a religião — porque o é — que é o culto do homem que quer ser Deus, encontraram-se. Que aconteceu? Combate, luta, anátema? Tudo isto poderia ter-se dado, mas de facto não se deu. Aquela antiga história do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Concílio. Com efeito, um imenso amor para com os homens penetrou totalmente o Concílio. A descoberta e a consideração renovada das necessidades humanas — que são tanto mais molestas quanto mais se levanta o filho desta terra — absorveram toda a atenção deste Concílio. Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: também nós —  e nós mais do que ninguém somos cultores do homem” [destaques nossos].

Caríssimos, a elocução de João XXIII e o discurso de Paulo VI não se tratam apenas de expressões lamentáveis e confusas, mas de uma espiritualidade própria do Concílio, isto é, do pacifismo, do culto ao homem, da conversão da Igreja ao mundo inspirada pelo seu príncipe.

Vajamos alguns pontos que atestam o que estamos dizendo.

O sacerdócio ministerial e o sacerdócio dos fiéis

Apesar da Lumen Gentium fazer uma distinção do sacerdócio ministerial e o sacerdócio comum dos fiéis, (nº 10), em seguida (nº 11) fala do sacerdócio em geral, assim criando uma confusão e fazendo do sacerdócio ministerial uma função mais ligada ao comum.

 Exaltação da liberdade de consciência acima da Lei de Deus

“Este Concílio Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa. Esta liberdade consiste no seguinte: todos os homens devem estar livres de coacção, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo a mesma, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites. Declara, além disso, que o direito à liberdade religiosa se funda realmente na própria dignidade da pessoa humana, como a palavra revelada de Deus e a própria razão a dão a conhecer. Este direito da pessoa humana à liberdade religiosa na ordem jurídica da sociedade deve ser de tal modo reconhecido que se torne um direito civil” [Dignitatis humanae, nº 2, destaques nossos].

Essa declaração é uma manifestação clara da errônea presunção de que a consciência deve se impor sobre a objetividade da Lei Moral imutável e a ordem de ser das coisas. E continua:

“Tudo isto aparece ainda mais claramente quando se considera que a suprema norma da vida humana é a própria lei divina, objectiva e universal, com a qual Deus, no desígnio da sua sabedoria e amor, ordena, dirige e governa o universo inteiro e os caminhos da comunidade humana. Desta sua lei, Deus torna o homem participante, de modo que este, segundo a suave disposição da divina providência, possa conhecer cada vez mais a verdade imutável.

(…) É, portanto, uma injustiça contra a pessoa humana e contra a própria ordem estabelecida por Deus, negar ao homem o livre exercício da religião na sociedade, uma vez salvaguardada a justa ordem pública.

Além disso, os actos religiosos, pelos quais os homens, privada e publicamente, se orientam para Deus segundo própria convicção, transcendem por sua natureza a ordem terrena e temporal. Por este motivo, a autoridade civil, que tem como fim próprio olhar pelo bem comum temporal, deve, sim, reconhecer e favorecer a vida religiosa dos cidadãos, mas excede os seus limites quando presume dirigir ou impedir os actos religiosos.” [Dignitatis humanae, nº 3, destaques nossos].

Hora se diz que a Lei de Deus é objetiva e universal, portanto a norma a ser seguida. Outra hora que não se deve ter coação sobre as consciências. Ninguém exclui que seja oportuno ao homem que caminhe livremente para o bem, mas nossa época fala da dignidade de liberdade de uma maneira um tanto distorcida. A verdadeira dignidade consiste em ser filho de Deus: “A Lei do Espírito de Vida me libertou, em Jesus Cristo, da Lei do pecado e da morte”, São Paulo [Rm 8,2]

A noção liberal de liberdade

“Eles não temem em traçar paralelos blasfemos entre o Evangelho e a Revolução”, diz São Pio X. Eis um exemplo:

Um dos principais ensinamentos da doutrina católica, contido na palavra de Deus e constantemente pregado pelos santos Padres é aquele que diz que o homem deve responder voluntariamente a Deus com a fé, e que, por isso, ninguém deve ser forçado a abraçar a fé contra vontade. (…) Concorda portanto, plenamente com a índole da fé que em matéria religiosa se exclua qualquer espécie de coacção humana. E por isso o regime da liberdade religiosa contribui muito para promover aquele estado de coisas em que os homens podem sem impedimento ser convidados à fé cristã, abraçá-la livremente e confessá-la por obras em toda a sua vida[Dignitatis Humanae, nº 10, destaques nossos]

Não há nenhuma sociedade na vasta história humana sem ausência de coação. Por que? Simples, sem a coação moral que estão nas leis surge a anarquia.

Acaso alguém pensa que Nosso Senhor deixou de usar a coação: “Quem não crer será condenado” [Mc 16,16]? Nascemos para a vida por nossos pais, e seremos ressuscitado segundo as nossas obras, diz o padre Antônio Vieira. O inferno pesa sobre as consciências. Há, portanto, coações boas e saudáveis.

Reconciliar a Igreja com a Revolução, tal é a empresa dos liberais que se dizem católicos. Liberalismo é pecado.

A peste do indiferentismo

  1. Hinduísmo e Budismo

“De igual modo, as outras religiões que existem no mundo procuram de vários modos ir ao encontro das inquietações do coração humano, propondo caminhos, isto é, doutrinas e normas de vida e também ritos sagrados.

A Igreja católica nada rejeita do que nessas religiões existe de verdadeiro e santo. Olha com sincero respeito esses modos de agir e viver, esses preceitos e doutrinas que, embora se afastem em muitos pontos daqueles que ela própria segue e propõe, todavia, reflectem não raramente um raio da verdade que ilumina todos os homens [Nostra aetate, nº 2, destaques nossos].

2. A religião do Islão

A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. (…) E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens[Nostra aetate, n º3, destaques nossos].

Is 44, 6: “Eis o que diz o Senhor, rei de Israel, e seu Redentor, o Senhor dos exércitos: Eu sou o primeiro e sou o último, e fora de mim não há Deus“.

Is 45, 21-22-23: “Fazei valer vossos argumentos, consultai-vos uns aos outros: quem havia predito o que se passa, quem o tinha anunciado desde longa data? Não fui eu, o Senhor, e nenhum outro? Não há Deus fora de mim. Volvei-vos para mim, e sereis salvos, todos os confins da terra, porque eu sou Deus e sou o único, juro-o por mim mesmo! A verdade sai de minha boca, minha palavra jamais será revogada: todo joelho deve dobrar-se diante de mim, toda língua deve jurar por mim (…)”.

Jo 6, 68: “Respondeu-lhe Simão Pedro: “Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da vida eterna”.

At 4, 12: Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome [Cristo] foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”.

3. A religião judaica

Gostaríamos de mencionar aqui a oração litúrgica pelos judeus na Sexta-feira Santa. Eis a conseqüência no pós-conciliar. Primeiro a oração antes do Concílio Vaticano II:

Oremos também pelos pérfidos judeus para que o Senhor lhes tire de cima do coração o véu, e que reconheçam conosco Nosso Senhor Jesus Cristo.

Oremos: Onipotente e eterno Deus, que não recusais misericórdia mesmo aos pérfidos judeus, ouvi as preces que, por causa da sua cegueira, Vos dirigimos; afim de que, reconhecendo a luz da vossa verdade, que é Cristo, sejam enfim arrancados das suas trevas. Pelo mesmo Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém”.

Agora a do Novus Ordo:

“Oremos pelo povo judeu, para que Deus nosso Senhor, que falou aos seus pais pelos antigos Profetas, o faça progredir no amor do seu nome e na fidelidade à sua aliança.

Deus eterno e omnipotente, que confiastes as vossas promessas a Abraão e à sua descendência, atendei com bondade as preces da vossa Igreja, para que o povo da primeira aliança alcance a plenitude da redenção. Por Cristo, nosso Senhor”.

Lex orandi, lex credendi – se reza como se crer.

Continuando.

“Ainda que rejeite inteiramente o ateísmo, todavia a Igreja proclama sinceramente que todos os homens, crentes e não-crentes, devem contribuir para a recta construção do mundo no qual vivem em comum. O que não é possível sem um prudente e sincero diálogo” [Gaudium et spes, n º21 ]

O decreto sobre o Ecumenismo segue a mesma linha:

“(…) as Igrejas e Comunidades separadas, embora creiamos que tenham defeitos, de forma alguma estão despojadas de sentido e de significação no mistério da salvação. Pois o Espírito de Cristo não recusa servir-se delas como de meios de salvação cuja virtude deriva da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja católica” [Unitatis Redintegratio, nº 3]

São Cipriano (séc. III): “Não há salvação fora da Igreja”.

“Todo aquele queira se salvar, antes de tudo é preciso que mantenha a fé católica; e aquele que não a guardar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá para sempre (…) está é a fé católica e aquele que não crer fiel e firmemente, não poderá se salvar” [Quicumque, Santo Atanásio, séc. IV].

Não desconsideramos dizer que todo erro tem lados que são verdadeiros ou positivos; o mal absoluto não existe, mas só existe enquanto corrupção do bem. No entanto, há um grande perigo tomar como verdadeiro o resto de verdade não atingido pelo erro. Por isso Santo Atanásio diz que “é preciso que mantenha a fé católica; e aquele que não a guardar íntegra e inviolada, sem dúvida perecerá para sempre”. Como poderiam não-crentes na religião Católica contribuir para a recta construção do mundo? Como poderia o Espírito Santo se servir de doutrinas opostas a da religião Católica fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo para a salvação das almas? No instante em que o Concílio diz: “vocês têm uma consciência reta, possuem os meios de salvação”, está enganado as almas. O espírito missionário da Igreja nunca foi esse. Dizer que há valores salvíficos em outras religiões é uma heresia das grandes!

O item nº 4 da declaração sobre a Liberdade religiosa é, no mais estrito do termo, a assinatura de uma apostasia:

A liberdade ou imunidade de coacção em matéria religiosa, que compete às pessoas tomadas individualmente, também lhes deve ser reconhecida quando actuam em conjunto.

(…) Também pertence à liberdade religiosa que os diferentes grupos religiosos não sejam impedidos de dar a conhecer livremente a eficácia especial da própria doutrina para ordenar a sociedade e vivificar toda a actividade humana. Finalmente, na natureza social do homem e na própria índole da religião se funda o direito que os homens têm de, levados pelas suas convicções religiosas, se reunirem livremente ou estabelecerem associações educativas, culturais, caritativas e sociais” [Dignitatis Humanae, nº 4].

Mt 4, 8-10: “De novo o demônio o transportou a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua magnificência. E lhe disse: Tudo isto te darei, se prostrado, me adorares. Então Jesus disse-lhe: Vai-te Satanás, porque está escrito: O Senhor teu Deus adorarás, e a Ele só servirás“.

O naturalismo

Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo a única salvação para a paz num mundo cheio de guerras, e afundado no pecado, foi pouco citado no capítulo V de Gaudium et spes que trata sobre as organizações internacionais. O principal erro do século, o comunismo, não foi citado uma única vez em todo documento.

As condenações dos Papas

Leão XIII, encíclica Immortale Dei, nº 31; 32; 33; 34 – racionalismo individualista, indiferentismo, monismo de Estado e direito a liberdade religiosa:

“Eis aqui o primeiro de todos esses princípio: todos os homens, já que são da mesma raça e da mesma natureza, são semelhantes, e, “ipso facto”, iguais entre si na prática da vida; cada um depende tão bem só de si, que de modo algum está sujeito à autoridade de outrem: pode com toda liberdade pensar sobre qualquer coisa o que quiser, fazer o que lhe aprouver; ninguém tem o direito de mandar aos outros. (…) a autoridade pública é apenas a vontade do povo, o qual, só de si mesmo dependendo, é também o único a mandar a si.

(…) Destarte, como se vê, o Estado não é outra coisa mais senão a multidão soberana e que se governa por si mesma e desde que o povo é considerado a fonte de todo o direito e de todo o poder, segue-se que o Estado não se julga jungido a nenhuma obrigação para com Deus, não professa oficialmente nenhuma religião, não é obrigado a perquirir qual é a única verdadeira entre todas, nem a preferir uma às outras, nem a favorecer uma principalmente”.

Conseqüência disso é o “direito a liberdade religiosa” no Estado:

“(…) mas a todas deve atribuir a igualdade em direito, com este fim apenas, de impedi-las de perturbarem a ordem pública. (…) Daí decorrem necessariamente a liberdade sem freio de toda consciência, a liberdade absoluta de adorar ou de não adorar a Deus, a licença sem limites de pensar e de publicar os próprios pensamentos.

(…) Dado que o Estado repousa sobre esses princípios, hoje em grande favor, fácil é ver a que lugar se relega injustamente a Igreja. Com efeito, onde quer que a prática está de acordo com tais doutrinas, a religião católica é posta, no Estado, em pé de igualdade, ou mesmo de inferioridade, com sociedades que lhes são estranhas. (…) ostentam um soberbo desprezo pelas santas leis da Igreja. (…) Em suma, tratam a Igreja como se ela não tivesse nem o caráter nem os direitos de uma sociedade perfeita, e fosse uma mera associação semelhante às outras que existem no Estado” [Immortale Dei].

Gregório XVI, encíclica Mirari Vos, nº 6 – sobre a necessidade de uma reforma da Igreja:

“(…) como reza o testemunho dos Padres do Concílio de Trento (Sess. 13, dec. de Eucharistia in proœm.), que Igreja recebeu sua doutrina de Jesus Cristo e dos seus Apóstolos, e que o Espírito Santo a está continuamente assistindo, ensinando-lhe toda a verdade, é por demais absurdo e altamente injurioso dizer que se faz necessária uma certa restauração ou regeneração, para fazê-la voltar à sua primitiva incolumidade, dando-lhe novo vigor, como se fosse de crer que a Igreja é passível de defeito, ignorância ou outra qualquer das imperfeições humanas; com tudo isto pretendem os ímpios que, constituída de novo a Igreja sobre fundamentos de instituição humana, venha a dar-se o que São Cipriano tanto detestou: que a Igreja, coisa divina, se torne coisa humana”.

Pio IX, encíclica Quanta Cura, nº 3 – naturalismo e sua aplicação no Estado:

“Sabeis muito bem, Veneráveis Irmãos, que em nosso tempo há não poucos que, aplicando à sociedade civil o ímpio e absurdo princípio chamado de naturalismo, atrevem-se a ensinar “que a perfeição dos governos e o progresso civil exigem imperiosamente que a sociedade humana se constitua e se governe sem preocupar-se em nada com a religião, como se esta não existisse, ou, pelo menos, sem fazer distinção nenhuma entre a verdadeira religião e as falsas”.”

Conseqüência: “direito a liberdade religiosa” no Estado:

“E, contra a doutrina da Sagrada Escritura, da Igreja e dos Santos Padres, não duvidam em afirmar que ‘a melhor forma de governo é aquela em que não se reconheça ao poder civil a obrigação de castigar, mediante determinadas penas, os violadores da religião católica, senão quando a paz pública o exija’. E com esta idéia do governo social, absolutamente falsa, não hesitam em consagrar aquela opinião errônea, em extremo perniciosa à Igreja católica e à saúde das almas, chamada por Gregório XVI, nosso Predecessor, de feliz memória., loucura , isto é, que “a liberdade de consciências e de cultos é um direito próprio de cada homem, que todo Estado bem constituído deve proclamar e garantir como lei fundamental, e que os cidadãos têm direito à plena liberdade de manifestar suas idéias com a máxima publicidade – seja de palavra, seja por escrito, seja de outro modo qualquer -, sem que autoridade civil nem eclesiástica alguma possam reprimir em nenhuma forma”. Ao sustentar afirmação tão temerária, não pensam nem consideram que com isso pregam a liberdade de perdição” [Quanta Cura].

Pio IX, encíclica Syllabus Errorum:

“15º É livre a qualquer um abraçar o professar aquela religião que ele, guiado pela luz da razão, julgar verdadeira. 16º No culto de qualquer religião podem os homens achar o caminho da salvação e alcançar a mesma eterna salvação. 17º Pelo menos deve-se esperar bem da salvação eterna daqueles todos que não vivem na verdadeira Igreja de Cristo”. 18º O protestantismo não é senão outra forma da verdadeira religião cristã na qual se pode agradar a Deus do mesmo modo que na Igreja Católica. 21º A Igreja não tem poder para definir dogmaticamente que a religião da Igreja Católica é a única religião verdadeira. 55° A Igreja deve estar separada do Estado e o Estado da Igreja. 57º A ciência das coisas filosóficas e morais e as leis civis podem e devem ser livres da autoridade divina e eclesiástica. 76º A ab-rogação do poder temporal que possui a Sé Apostólica contribuiria muito para a felicidade e liberdade da Igreja”. 77º Na nossa época já não é útil que a Religião Católica seja tida como a única Religião do Estado, com exclusão de quaisquer outros cultos. 79º É falso que a liberdade civil de todos os cultos e o pleno poder concedido a todos de manisfestarem clara e publicamente as suas opiniões e pensamentos produza corrupção dos costumes e dos espíritos dos povos, como contribua para a propagação da peste do Indiferentismo. 80º O Pontífice Romano pode e deve conciliar-se e transigir com o progresso, com o Liberalismo e com a Civilização moderna”.

Leão XIII, encíclica Libertas, nº 27 – o Estado deve reconhecer a religião Católica:

“Esta religião, os chefes de Estado a devem pois conservar e proteger, se querem, como é obrigação sua, prover prudente e utilmente aos interesses da comunidade. Pois o poder público foi estabelecido para utilidade daqueles que são governados, e conquanto ele não tenha por fim próximo senão conduzir os cidadãos à prosperidade desta vida terrestre é, contudo, para ele um dever não diminuir, mas pelo contrário aumentar, para o homem, a faculdade de atingir esse bem supremo e soberano, no qual consiste a eterna felicidade dos homens: o que se torna impossível sem a religião”.

Leão XIII, em sua carta E giunto ao Imperador do Brasil, Dom Pedro II – o princípio da liberdade de cultos:

“A liberdade de cultos, considerada em relação à sociedade, está baseada no princípio de que o Estado, inclusive em uma nação católica, não está obrigado a professar ou favorecer nenhum culto; deve permanecer indiferente a respeito de todos e considerá-los juridicamente iguais.

(…) semelhante liberdade põe num mesmo plano a verdade e o erro, a fé e a heresia, a Igreja de Jesus Cristo e qualquer outra instituição humana; estabelece uma funesta e deplorável separação entre a sociedade humana e Deus, seu autor; desemboca finalmente na triste conseqüência do indiferentismo do Estado em matéria religiosa ou, o que é o mesmo, no ateísmo“.

Disse o Cardeal Joseph Ratzinger, em Teoria dos Princípios Teológicos, 1985:

“Se se deseja emitir um diagnóstico global sobre este texto [da Gaudium et Spes] poder-se-ia dizer que significa (junto com os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões mundiais) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de Antisyllabus”.

Enumeração da espiritualidade do Concílio Vaticano II

  1. Pacifismo
  2. Mansidão evangélica
  3. Laxismo Moral
  4. Confusões e incoerências
  5. Exaltação da consciência acima da lei
  6. Definição liberal da liberdade
  7. Tendência ao indiferentismo religioso e ao naturalismo
  8. Assassinato do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo
  9. Assassinato do espírito missionário
  10. Consagração ao ecumenismo, portanto ao liberalismo
  11. Subversão da Igreja

Conclusão

Em razão de tudo o que dissemos, devemos ter em mente o que nos falou a respeito do modernismo São Pio X em sua encíclica Pascendi:

Pasmem, embora homens de tal casta, que Nós os ponhamos no número dos inimigos da Igreja; não poderá porém, pasmar com razão quem quer que, postas de lado as intenções de que só Deus é juiz, se aplique a examinar as doutrinas e o modo de falar e de agir de que lançam eles mão. Não se afastará, portanto, da verdade quem os tiver como os mais perigosos inimigos da Igreja. Estes, em verdade, como dissemos, não já fora, mas dentro da Igreja, tramam seus perniciosos conselhos; e por isto, é por assim dizer nas próprias veias e entranhas dela que se acha o perigo, tanto mais ruinoso quanto mais intimamente eles a conhecem. Além de que, não sobre as ramagens e os brotos, mas sobre as mesmas raízes que são a Fé e suas fibras mais vitais, é que  meneiam eles o machado.

Batida pois esta raiz da imortalidade, continuam a derramar o vírus por toda a árvore, de sorte que coisa alguma poupam da verdade católica, nenhuma verdade há que não intentem contaminar. E ainda vão mais longe; pois pondo em obra o sem número de seus maléficos ardis, não há quem os vença em manhas e astúcias:  porquanto, fazem promiscuamente o papel ora de racionalistas, ora de católicos, e isto com tal dissimulação que arrastam sem dificuldade ao erro qualquer incauto; e sendo ousados como os que mais o são, não há conseqüências de que se amedrontem e que não aceitem com obstinação e sem escrúpulos. Acrescente-se-lhes ainda, coisa aptíssima para enganar o ânimo alheio, uma operosidade incansável, uma assídua e vigorosa aplicação a todo o ramo de estudos e, o mais das vezes, a fama de uma vida austera. Finalmente, e é isto o que faz desvanecer toda esperança de cura, pelas suas mesmas doutrinas são formadas numa escola de desprezo a toda autoridade e a todo freio; e, confiados em uma consciência falsa, persuadem-se de que é amor de verdade o que não passa de soberba e obstinação”.

Não queremos dizer, se bem que não falamos nada de novo debaixo do sol nos limitando a breves comentários e mais em apresentar os documentos dos Papas, que em tudo o Concílio Vaticano II é mau, pois há acertos naquilo que ele nos diz à luz da Tradição. No entanto, há muitos documentos perigosos, com erros manifestos, com tendência liberal e que não expressam o ensinamento do Magistério. Por isso devemos ter sempre em mente o que nos diz São Vicente de Leris sobre o ensinamento da Igreja: quod ubique, quod sempre, quod ab omnibus– o que sempre, por todos e em todos os lugares. Ou seja, professam a mesma fé e a mesma lei de Cristo.

Notas

[1] O Reno se lança no Tigre, Nova et vetera.

[2] Dignitatis Humanae, nº 2.

3 comentários sobre “A espiritualidade do Concílio Vaticano II – Apostasia dos princípios

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